sábado, 28 de abril de 2012

Olhos fechados



Quando eu era criança eu tive um sonho. Sonhei que estava sentada em um balanço. Não era um balanço qualquer e nem em um lugar qualquer. Não havia claridade nenhuma, era a completa escuridão.
Não lembro se eu sentei sozinha naquele balanço ou se alguem havia me colocado lá, mas lembro da sensação de estar sentada e com minhas pernas soltas no ar.
Eu estava no alto. A sensação que eu sentia é que era muito alto. Concentrei todas as minhas forças nos meus punhos, nas minhas pequemas mãos de criança. Lembro que sentia muito medo de cair pois, de alguma forma eu sabia que estava muito longe do chão.
Aos poucos o balanço começou a ganhar velocidade. Ele não era um balanço normal desses de parquinhos infantis onde encontramos em qualquer praça. Meu balanço não tinha o movimento de vai e volta, ele apenas ia para frente.
Naquela total escuridão meu balanço começou a ganhar velocidade e aos poucos senti meus cabelos indo para atrás. Senti o vento tocar o meu rosto.
A sensação que eu senti naquele sonho eu nunca mais tive em nenhum outro momento da minha vida.
Depois de um tempo quando já havia ganho bastante velocidade eu fechei os olhos. Interessante porque já estava escuro, e eu não enxergava nada, mas eu lembro da extrema necessidade de fechar os olhos. Apertei-os bem forte. Não era medo que eu sentia, era, talvez, euforia. Talvez minha adrenalina estive bastante alterada. E eu não tenho dúvidas que a sensação que eu tinha era muito prazerosa. Tudo o que eu mais queria era que aquele balanço não parece e assim, eu pudesse sentir ainda mais o vento no meu rosto. Não lembro como o sonho acabou mas de tudo isso, o que mais me chama atenção são os olhos fechados. Até hoje, instintivamente eu fecho os meus olhos nos momentos mais extremos da vida.
Quando criança, querendo me esconder de alguem eu fechava os olhos na esperança que a pessoa não me visse. Quando adulta fecho meus olhos na esperança de não enxergar aquilo que já foi visto.
O medo me faz apertar os olhos. O medo me faz querer voltar a escuridão do meu quarto numa madrugada de inverno  onde ninguém pode me aborrecer.
Não há como manter os olhos abertos nos momentos de maiores prazer. Fecho os meus olhos na esperança que o tempo não passe, que simplesmente congele. Fecho os meus olhos porque são outros sentidos preferem prevalecer.
Aperto os meus olhos quando reencontro e abraço um amigo querido. Naqueles segundos onde tudo o que eu mais quero é toca-lo e ficar de olho aberto é impossível. Fecho meus olhos e me jogo no abraço apertado.
No encontro de lábios que ansiavam por se tocar, até os olhos se fecham em respeito ao momento tão esperado e desejado. Quem suportaria fazer outra coisa senão apenas aproveitar a sensação indescritível de um beijo apaixonado?
O fechar dos olhos vai muito alem do movimento de pálpebras. O fechar de olhos é um movimento da alma que o corpo teima em trazer a tona.
Continuo fechando meus olhos à todas as sensações que quando criança eu experimentei. A vida adulta me trouxe outras sensações, mas foram à essas que eu apresentei esse movimento da alma.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Pouco sentido


Vem, senta aqui ao meu lado. Sinta a brisa do mar. Feche os olhos por um momento. Respire fundo. O que passa na sua cabeça?
O que tem feito nesses dias? Respire fundo mais uma vez.
Pegue um pouco de areia da praia nas mãos. Sinta escorrer por entre os dedos. Qual é a sensação?
Por que sente-se perdida? Feche os olhos.
O passado é um tempo que não volta. Por que é tão presente?
Pegue minha mão. Qual é a sensação?
Vamos caminhando. De mãos dadas eu e Solidão.
Já não sei quem faz companhia para quem. Em silêncio temos um diálogo eloquente.
Agora me abrace forte. Qual é a sensação?
Em volta de mim vejo o mundo rodar. Finjo ter paciência.
E se eu começasse novamente? Há tempo a perder?
Com pés descansos eu começo novamente. Já não ando mais em círculos.
E então, me diga, qual é a sensação?

quarta-feira, 4 de abril de 2012

A caixa

Eu hoje joguei tanta coisa fora, eu vi o meu passado passar por mim. Cartas e fotografias, gente que foi embora. A casa fica bem melhor assim” (Herbert Vianna)



Peguei uma caixa grande e coloquei ali dentro tudo o que um dia me prendeu. Revistas, medos, cartas, angústias, fotografias velhas, sorrisos amarelos, bilhetes, agenda telefonica, mágoas, CD's, perfumes, lágrimas. Como na música do Herbert Vianna, eu vi o meu passado passar por mim. Como em um velho filme preto e branco, somente a nostalgia tomava conta daquele lugar. Senti o cheiro dos lugares ao rever as fotografias. Mentalmente cantei as músicas ao separar os CD's. Me remeti ao passado. Relembrei momentos vividos. Decidi então colocá-los no fundo da caixa. Já era tempo de me desfazer das antigas lembranças. Um novo futuro precisa ser vivido. Uma nova vida me espera e nada do passado poderá me segurar, nem mesmo aquela caixa.
Fui até o armário peguei a fita adesiva larga e lacrei a caixa que já estava fechada. Debrucei-me sobre a caixa e suspirei alto. Era o fim. Ali dentro estavam todos os monstros que eu consegui tirar de dentro de mim. Ainda há outros e eu não sou leviana em dizer que são os últimos. Contudo, uma onda de satisfação tomava conta de mim. Finalmente eu consegui mandar quase tudo embora, dentro daquela caixa.
Peguei a caixa, abri a porta e fui descendo as escadas. Lixo. Era isso que eu tinha decido. Tudo ia para o Lixo. Tudo o que não me serve, tudo o que me incomoda, tudo que me coloca para baixo foi para o lixo.
Quando retornei vi que “a casa fica bem melhor assim”. O ar era diferente. A atmosfera era diferente. Eu estava diferente. Agora eu tento fugir da prisão que eu construi. Parte do que eu edifiquei eu tinha destruído e colocado dentro daquela caixa. Agora é questão de tempo.
O que me deixa mais tranquila é que agora consigo me enxergar no espelho. Já vejo um rosto e não uma figura disforme. Há sonhos dentro de mim. Há um sorriso no rosto. Já consigo me ver e estou descobrindo quem sou eu, mas isso é outra história.

terça-feira, 27 de março de 2012

Manhã de domingo.

Não, eu não queria ter levantado da cama. Queria ter ficado pelo menos mais uma hora por lá. O dia está nublado e por isso eu considero um dia perfeito para ficar um pouco mais na cama. Ultimamente não tenho tido tempo para fazer essas coisas boas que somente os domingos demanhã nos proporcionam. Por falar nisso, para que mais as manhãs de domingo servem senão para que possamos ficar mais uma hora na cama? Não, hoje não é domingo, e obviamente eu não fiquei na cama por esse motivo.
Mas ainda que fosse domingo, os monstros que fazem morada dentro de mim não me deixariam um minuto se quer quieta, em paz, sem pensar em nada, durante essa uma hora na cama. Já os convidei para ir embora. Tenho certeza que fiz isso com toda educação de uma boa moça de família. Não deu certo. Me despi da imagem de boa moça e expulsei-os de dentro de mim . Não deu certo novamente.
Não, eu não quero mais viver com as dúvidas, com sentimentos não compreendidos, com os momentos inacabados e muitos menos com falsas esperanças. Quero andar, correr, dançar, gritar e ainda assim não ser mal compreendida. Preciso me tirar de dentro dessa prisão que eu construi ao redor de mim mesma, tijolo por tijolo, centímetro por centímetro. Libertar-me!
Quero o sorriso mais sincero, o abraço mais apertado, a boca mais carinhosa, os olhos mais brilhantes e as palavras mais verdadeiras. Chega de viver o meio termo. Chega de viver pela metade. Quero o completo. Quero o inteiro. O pouco eu já tenho, agora eu quero o muito.
Respiro fundo e sigo meu caminho. Sigo com pés descalços, sentindo todas as pedras, poças de águas, e terra lisa que o caminho pode me oferecer. Vivo intesamente cada de minuto tendo a certeza que mudar é preciso, sem deixar de ficar mais uma hora na cama na manhã de domingo e, claro, sem nunca perder a essência.