Quando eu era criança eu tive um sonho. Sonhei que estava sentada em
um balanço. Não era um balanço qualquer e nem em um lugar qualquer. Não
havia claridade nenhuma, era a completa escuridão.
Não lembro se eu sentei sozinha naquele balanço ou se alguem havia me
colocado lá, mas lembro da sensação de estar sentada e com minhas pernas soltas
no ar.
Eu estava no alto. A sensação que eu sentia é que era muito alto.
Concentrei todas as minhas forças nos meus punhos, nas minhas pequemas mãos de criança. Lembro que sentia muito medo de cair pois, de alguma forma eu sabia que estava
muito longe do chão.
Aos poucos o balanço começou a ganhar velocidade. Ele não era um balanço normal desses de parquinhos infantis onde
encontramos em qualquer praça. Meu balanço não tinha o movimento de vai e
volta, ele apenas ia para frente.
Naquela total escuridão meu balanço começou a ganhar velocidade e aos
poucos senti meus cabelos indo para atrás. Senti o vento tocar o meu rosto.
A sensação que eu senti naquele sonho eu nunca mais tive em nenhum
outro momento da minha vida.
Depois de um tempo quando já havia ganho bastante velocidade eu fechei
os olhos. Interessante porque já estava escuro, e eu não enxergava nada, mas eu
lembro da extrema necessidade de fechar os olhos. Apertei-os bem forte. Não era
medo que eu sentia, era, talvez, euforia. Talvez minha adrenalina estive
bastante alterada. E eu não tenho dúvidas que a sensação que eu tinha era muito
prazerosa. Tudo o que eu mais queria era que aquele balanço não parece e assim,
eu pudesse sentir ainda mais o vento no meu rosto. Não lembro como o sonho acabou mas de tudo isso, o que mais me chama atenção são os olhos fechados. Até hoje, instintivamente
eu fecho os meus olhos nos momentos mais extremos da vida.
Quando criança, querendo me esconder de alguem eu fechava os olhos na
esperança que a pessoa não me visse. Quando adulta fecho meus olhos na
esperança de não enxergar aquilo que já foi visto.
O medo me faz apertar os olhos. O medo me faz querer voltar a escuridão
do meu quarto numa madrugada de inverno onde ninguém pode me aborrecer.
Não há como manter os olhos abertos nos momentos de maiores prazer.
Fecho os meus olhos na esperança que o tempo não passe, que simplesmente
congele. Fecho os meus olhos porque são outros sentidos preferem prevalecer.
Aperto os meus olhos quando reencontro e abraço um amigo querido.
Naqueles segundos onde tudo o que eu mais quero é toca-lo e ficar de olho aberto é
impossível. Fecho meus olhos e me jogo no abraço apertado.
No encontro de lábios que ansiavam por se tocar, até os olhos se fecham
em respeito ao momento tão esperado e desejado. Quem suportaria fazer outra
coisa senão apenas aproveitar a sensação indescritível de um beijo apaixonado?
O fechar dos olhos vai muito alem do movimento de pálpebras. O fechar
de olhos é um movimento da alma que o corpo teima em trazer a tona.
Continuo fechando meus olhos à todas as sensações que quando criança eu
experimentei. A vida adulta me trouxe outras sensações, mas foram à essas que eu
apresentei esse movimento da alma.





